Comecei a fazer surf influenciada pelo melhor amigo que já fazia há anos. A sua dedicação, entusiasmo e compromisso para com o surf recordavam-me da minha própria entrega, inspiração e comprometimento com o yoga.
Passaram-se alguns anos desde que ficava nas espumas, no rema-rema, vira a prancha e põe-te de pé, os primeiros anos vivi uma relação amor/ódio com o mar, uma relação disfuncional onde o medo era uma realidade que me condicionava. Entrava com os amigos, eles remavam para fora e eu ficava nas espumas, ousava algumas vezes ir mais longe, a maioria das vezes porque puxavam por mim. Quantas vezes me diziam “ Anda Verinha, hoje está pequenino!” As minhas tentativas resumiam-se a remar um pouco mais e logo vir para trás, tal era o pânico das ondas. Tive que ficar na zona das espumas e com paciência ambientar-me ao mar. Confesso que ter medo causa muitas vezes frustração e até mesmo vergonha. A vontade de ir mais longe e o receio eram um constante e interminável braço de ferro e normalmente o medo vencia.
Fazia Yoga há anos e no entanto estava limitada pela minha mente que teimava comigo. Num dialogo intimista afrontava-me e assustava-me , fazendo-me recuar novamente para mais perto da areia.
Entre uma espuma e outra, observava os amigos e gravava na memória o que faziam, como remavam, qual era o timming de se colocarem de pé, a distancia entre um pé e o outro, a posição das pernas, ou como movimentavam o tronco, os braços e a cabeça. O que mais guardo desses tempos é a expressão que cada um tinha na hora de ir na onda. Eram rostos que me lembravam do meu yoga e que mostravam alegria, concentração, liberdade e realização.
Foi fácil perceber que estas duas áreas tinham semelhanças, exigem de quem as pratica devoção e auto-superação e devolvem bem-estar, sabedoria e integração.
Só posso agradecer aos muitos amigos que me ajudaram a conseguir estar hoje no outside. Quantas vezes me ouviram gritar sempre que entrava um set maior, quantas vezes me apoiaram com o simples calmante de estarem ali ao lado. Alguns riam-se, achavam que o pânico que traduzia era a brincar ou era fita, aqueles que me conheciam bem, sabiam que não era de todo brincadeira, que o medo era a minha realidade e que o esforço de estar ali, tinha a ver com a vontade de o superar.
Yoga e surf são mesmo semelhantes, em ambos precisamos de um corpo, uma mente e uma alma, ambos instigam à união destes três níveis do Ser Humano. Até os podemos exercitar sem termos muita consciência, mas a isso não chamamos Yoga e atrevo-me a dizer que também não é Surf. Ambos implicam destreza e superação, ambos nos fomentam uma maior noção das nossas capacidades e limitações e uma forte vontade de os ultrapassar.
Namastê!
Vera